Interpretação de Sonhos por Carl Jung: Arquétipos e Inconsciente Coletivo

Carl Jung, o discípulo de Freud, correspondeu-se com ele entre 1906 e 1913. Freud até considerou Jung como seu herdeiro. Mas tiveram um grande desentendimento e cortaram relações devido às suas diferentes opiniões sobre sonhos. 

Ambos acreditavam na existência de um inconsciente e na importância dos sonhos e admiravam a inteligência e curiosidade do outro. Mas havia diferenças, e essas diferenças levaram Freud a sentir-se traído por Jung, a quem tinha dado toda a atenção, e Jung começou a sentir que o paternalista Freud iria tão longe como calar-lhe a voz para preservar a sua própria teoria sobre os sonhos.

Jung tinha uma opinião mais simpática do inconsciente do que Freud. Em vez de o considerar como aquela parte animal da nossa alma contra a qual lutamos, Jung via o inconsciente como uma colecção de vários objetivos espirituais a serem explorados e recebidos.

Acreditava firmemente que os nossos sonhos não eram tentativas disfarçadas para esconder os verdadeiros sentimentos da mente acordada. Eram, sim, claras tentativas para guiar o próprio acordar.

Segundo ele, o objectivo de viver (e de sonhar) era aceitar e integrar todas as nossas partes. Assim, considerava os sonhos como expressões de uma nossa parte a tentar comunicar com a parte consciente, para conseguir um todo: os sonhos não disfarçavam o inconsciente, revelavam-no.

Jung disse uma vez: «É muito provável que sonhemos continuamente, mas esse inconsciente faz tanto barulho que não o ouvimos.»

Como afirma James R. Lewis na Enciclopédia dos Sonhos, Jung considerava o ego como a própria imagem do indivíduo (e a frase «Tem um ego do tamanho do Maracanã» faz sentido neste contexto) e à imagem que projetamos ele chamava «persona».

Mas para estarmos bem na sociedade, Jung acreditava que afastávamos alguns aspectos de nós próprios, que referia como o «não próprio». Estes aspectos rejeitados prendem-se a uma estrutura inconsciente a que chamava «sombra».

Além disso, existem traços femininos (anima) reprimidos na alma masculina e traços masculinos (animus) reprimidos na alma feminina.

O anima, animus e a sombra devem ser integrados no ego. Jung achava que nos apaixonamos pelo oposto para nos tornarmos um todo.

Por exemplo, se tivermos bastante anima mas não animus, podemos sentir-nos atraídos por alguém com imenso animus. Esta forma de vermos no nosso companheiro o que não temos é aceite em muitas escolas de terapia de casais.

Isso não significa que Jung acreditava que sabemos sempre o que nos faz falta e o que precisamos, por isso é muito provável sentirmos que estamos atraídos por alguém e não percebermos porquê.

Segundo Jung, o inconsciente colectivo é uma tendência inata de organizar e interpretar as nossas experiências de forma semelhante. Como espécie, a humanidade tem uma consciência em grupo que funciona abaixo da superfície da compreensão consciente.

O teor do inconsciente colectivo exprime-se sobretudo em símbolos que Jung chamava arquétipos.

Nos sonhos, aparecem todos estes diferentes aspectos de nós.

Persona

Como dissemos, esta é a imagem que transmitimos ao mundo e não o «nós próprios.» Nos sonhos, a persona aparece como uma pessoa normal, ou nós próprios ou outra pessoa. Estar nu num sonho pode simbolizar a perda de persona.

Sombra

A sombra é o lado mais fraco ou instintivo da nossa natureza e provoca reacções negativas, como medo e raiva. A sua presença nos sonhos pode sugerir que precisamos de controlar mais a nossa fraqueza.

Anima e animus

O anima é o lado feminino da personalidade de um homem, muitas vezes representado nos sonhos por uma figura de deusa. O animus é o lado masculino da personalidade de uma mulher, representado nos sonhos por um homem poderoso ou heróico, tipo Deus.

A criança divina

Jung definia a criança divina como o símbolo do nosso verdadeiro ser. A presença de um bebé ou uma criança num sonho sugere vulnerabilidade, mas também frescura, espontaneidade e potencial.

O velho sábio

Simbolizado por um pai, padre ou outra figura de autoridade, a presença do velho sábio num sonho pode representar o nosso ser ou uma figura poderosa.

A grande mãe

A grande mãe é um símbolo não só de crescimento, educação e fertilidade, como também de sedução, possessão e domínio. A grande mãe aparece sob várias formas: mãe, princesa ou feiticeira.

Jung acreditava que não havia teor latente nos sonhos e que o sonho manifesto dá ao sonhador todo o conhecimento de que precisa. 

Defendia a amplificação do sonho para explorar o seu significado. E uma forma de tentar ver o que trazem as palavras, imagens e crenças quando pensamos nos sonhos.

Tentava encontrar uma maior compreensão das imagens que se prolongavam para além da linha da cultura do sonhador. Jung aconselhava os pacientes a descreverem-lhe os sonhos como se ignorasse total-mente os objectos, pessoas e cenário do sonho. Assim, os pacientes podiam contar toda a experiência do sonho, sem se julgarem ou explicarem.

Curiosidade

No fim da amizade de Freud e Jung, este tinha um sonho em que explorava uma casa, descendo aos pisos inferiores até encontrar salas que não existiam, chegando por fim a uma cave com dois crânios. Jung acreditava que o sonho era uma metáfora da exploração da sua própria alma, até ao nível do inconsciente colectivo. 

Freud, por outro lado, acreditava que os dois crânios (a mulher e a cunhada de Jung) indicavam a expressão de desejos escondidos no sonho.

Jung achava que os sonhos tinham uma sequência dramática, como uma peça em quatro atos. Os primeiros actos apresentavam os personagens, o conflito, e haveria uma espécie de resolução do drama.

Do mesmo modo, o fim do drama-sonho iria trazer uma solução ao problema do sonhador. Jung acreditava que havia vários tipos de sonhos: não significativos ou objectivos sobre os acontecimentos diários, sonhos significativos ou sonhos sobre a vida interior e bons sonhos, onde o inconsciente colectivo aparecia.

Enquanto o inconsciente pessoal é moldado pelas nossas próprias vidas, o inconsciente colectivo representa a vasta memória humana que existe dentro de cada um de nós e toma a forma de arquétipos – imagens míticas que ocorrem em todas as culturas com o passar do tempo. Estes arquétipos podem aparecer em sonhos – as mesmas imagens que apareciam aos nossos ancestrais e que nos aparecem a nós.

Exemplos de imagens de arquétipos são o velho sábio, a mãe natureza e o «mandala» (roda sagrada) presentes na arte, ciência e religiões em todo o mundo.

Jung descobriu muitas imagens de sonhos arquetípicos porque os sonhos dos seus pacientes possuíam símbolos que ele não conhecia mas que tinham um grande significado como imagens do mundo mítico.

No fim da sua carreira, Jung explorou o misticismo e o oculto e relacionou as suas teorias dos sonhos com o paranormal.

Muitas pessoas se inspiraram no seu trabalho, como o escritor e psicanalista James Hall e o mitologista John Campbell. Embora Lucy Goodison, autora de The Dreams of Women (Berkley, 1997), diga que o trabalho de Jung reforçava o valor das qualidades «femininas» (por exemplo a intuição), não desafiou o porquê de ser considerada uma qualidade «feminina». Acreditava também que o consciente e «a luz» eram qualidades «masculinas».

Bem…

Freud e Jung não são os únicos psicanalistas que desenvolveram teorias sobre sonhos e sonhar. Fritz Perls é o fundador da psicologia de Gestalt, um tipo de terapia que foca a harmonia das emoções e sentimentos no presente. Tinha também uma teoria sobre o que os sonhos revelam sobre o inconsciente.