A Ciência dos Pesadelos: O Que São? Como Evitar?

Os pesadelos, como os outros sonhos, ocorrem durante as fases de sono REM. Os pesadelos normalmente fazem com que os sonhadores acordem de um longo episódio de sono REM que durou cerca de 15 minutos.

Se não acordar, ainda é um pesadelo? Bem, tecnicamente, não. Pode chamar-lhe apenas um sonho «mau».

Os pesadelos são caracterizados na maioria pelos seguintes sintomas:

  • Um sentido de medo ou pavor do sonho que pode permanecer com o sonhador durante horas ou dias depois de acordar;
  • A paralisia física, chamada atonia que significa dormir o sono REM (oposto ao acordar físico comum nos terrores noturnos), mas talvez com mais movimentos de olhos do que o normal e uma pulsação e ritmos cardíacos ligeiramente mais elevados;
  • A capacidade de se lembrar de tudo ou de parte de um sonho assustador. Normalmente, o sonhador é ameaçado ou ferido de alguma forma;
  • Um reconhecimento de temas de sonhos poderosos e pessoais, ou uma repetição do mesmo sonho durante meses, anos ou até mesmo décadas;

Os pesadelos não são considerados desordens de sono, como os terrores noturnos. 

É interessante ver que embora as pessoas com terrores noturnos tenham sintomas físicos assustadores como gritar ou dar pontapés, e se sentem inconsoláveis durante o episódio, não se lembram de nada mais tarde, se conseguirem entrar num estado de sono.

No entanto, os pesadelos são uma história diferente. O teor dos pesadelos tem muito para nos revelar, se formos suficientemente corajosos para olharmos com mais atenção o que nos está a assustar.

Como o romancista Gail Godwin escreve em Sonhem Crianças, «Acredito que os nossos sonhos nos transportam pelas alturas más dos nossos dias, e, se quisermos ficar a conhecer o lado escuro do que somos, os sinais estão lá, à espera que os traduzamos.»

As drogas, o álcool, o estresse excessivo e a falta de sono alteram a qualidade e a quantidade de sono REM.

Não deveria ser surpresa que um dos possíveis resultados disso é termos poucos sonhos, sonhos estranhos ou pesadelos.

Embora estas coisas possam aumentar a incidência dos pesadelos, muitas vezes é a luta das nossas vidas diárias que causa os sonhos assustadores.

Muitas pessoas juram que comer pizza ou demasiada comida picante antes de se deitarem pode causar pesadelos, mas não temos conhecimento de nenhuma prova séria e científica que apoie essa hipótese.

Os pesadelos são muito frequentes nas crianças entre os três e os seis anos, e tornam-se menos frequentes com a idade. Mas 30 a 50% dos adultos dizem ter pesadelos ocasionais; os adultos com 25 anos ou mais dizem ter 1 ou 2 pesadelos por ano.

Apenas 5% da população adulta tem pesadelos em diversas ocasiões.

A mente sonhadora pede a honra da sua atenção…

Distinguimos os pesadelos dos terrores noturnos. Mas os especialistas também nos dizem que existem dois tipos diferentes de pesadelos:

  • Sonhos de ansiedade REM;
  • Pesadelos de estresse pós-traumático;

Os pesadelos de estresse pós-traumático (PST) são diferentes dos sonhos de ansiedade REM normais, ou dos pesadelos comuns.

Normalmente, surgem às pessoas que passaram por um acontecimento traumático, e o teor do sonho e a sua história são muito parecidos com o acontecimento.

Por isso, há muito poucas imagens disfarçadas. O sonho pode ser recorrente com muito poucas alterações de tempos a tempos, mas que os elementos do meio ambiente do sonhador podem gradulamente ser incorporados no enredo de sonhos prescrito.

Os pesadelos de esstresse pós-traumático são causados por acontecimentos traumáticos fora do alcance da experiência humana comum, tal como atrocidades de guerra, desastres naturais, raptos ou atos extremamente violentos testemunhados, sentidos ou até perpretados, que sobrecarregam os mecanismos defensivos do sonhador.

Os dirigentes da segunda Guerra Mundial e os sobreviventes dos campos de concentração sofreram pesadelos de estresse pós-traumático até 50 anos depois dos acontecimentos.

Os PST ocorrem normalmente durante o sono REM, mas podem também ocorrer durante a fase 2 do sono NREM. 

Ao contrário do que acontece durante os pesadelos «normais», estes sonhadores podem passar por sintomas psíquicos significativos, tal como um aumento da respiração e do ritmo cardíaco, e espasmos musculares com mais do que um acordar, ou interrupção, durante o sono REM.

Uma teoria psicológica diz que os sonhos pós-traumáticos são a forma de o corpo e de a mente repetirem o acontecimento na tentativa de o dominar no contexto «seguro» do corpo adormecido e da mente sonhadora, onde o acontecimento pode ser sentido de novo sem magoar.

Finalmente, a ansiedade e o estresse associados ao acontecimento traumático diminui quando o sonhador ganha de novo o controlo e confiança na sua vida.

Também é importante notar que um dos efeitos que um divórcio difícil pode ter nas crianças são os traumas.

Nada nos pesadelos pode magoá-lo

Sentir a arma na sua cabeça; o homem no cimo do vulcão a rir-se de forma maníaca quando larga a sua mão, largando-o no magma; a incapacidade de correr, mover, ou gritar quando o camião passa por cima de si — nenhuma destas imagens de pesadelos podem matá-lo, magoá-lo ou deixar marcas nas suas costas.

Os pesadelos não são acontecimentos exteriores. São interiores.

Alguns exemplos de pesadelos

  • Amigos ou familiares que de repente se tomam cruéis e perigoso;
  • Pistolas, facas e outras armas;
  • Acidentes de carro e avião;
  • Estar perdido;

Estes exemplos podem fazer com que o sonhador tenha a pesada sensação de que o seu lugar no mundo (ou até mesmo em terra firme!) está a mover-se violentamente. O sonhador está completamente fora de controlo. 

Será que isso é uma metáfora, por sentirmos que estamos em «terreno movediço», da forma como nos definimos no trabalho ou em casa? 

A nossa auto-confiança ou auto-compreensão estão a ser analisadas.

Usar os pesadelos para solucionar os problemas criativos

Quando acordamos de um pesadelo, os nossos corações estão aos saltos e as nossas mentes ansiosas.

Às vezes, é difícil acreditar que o que estávamos a sonhar não aconteceu realmente. Também é difícil lembrarmos que nós somos os autores dos nossos pesadelos — eles não acontecem por acaso.

Nós é que os criamos. O que quer isso dizer e como podemos usar esse conhecimento para tomar os pesadelos menos assustadores e mais úteis na nossa vida?

Quando temos pesadelos, o nosso inconsciente pode estar a enviar-nos uma mensagem de que não temos outra escolha senão «acordarmos».

Examinando o teor dos nossos pesadelos, em geral, dá-nos pistas para os acontecimentos perturbadores ou problemas que não estamos prontos a enfrentar conscientemente, ou com os quais lutamos diariamente. 

Os pesadelos podem até trazer soluções ou novas formas de pensar sobre situações difíceis.

Por exemplo, sonha noite após noite que está a passar a ferro uma blusa branca. 

Pensa que fez um bom trabalho, mas quando veste a blusa, está toda enrugada, molhada e queimada. 

Volta-se a tempo de ver o ferro transformar-se num gigante e soprar um vapor muito quente na sua direcção; foge com medo de ficar queimada.

O que pode isso significar? Detesta o ferro; é uma mulher de carreira que compra roupa para «lavar a seco».

Talvez o ferro seja a sua voz interior da perfeição, perseguindo-a quando trabalha 12 horas por dia para fazer o relatório perfeito. 

Ou talvez queira mesmo ter a certeza que a blusa se estraga apesar de o ferro estar na perfeição!

Quando o pesadelo recorre

Porque os nossos pesadelos tendem a descrever questões que ameaçam o nosso sentido de segurança emocional e bem-estar, muitas vezes sonhamos com a mesma coisa, pessoa ou lugar vezes sem conta.

Curiosidades finais

Uma teoria diz que os sonhos com assuntos recorrentes podem coincidir com o desenvolvimento da vida, ou são respostas a um estresse psicológico subjacente, como um divórcio ou mudança de emprego. As mulheres têm mais sonhos recorrentes do que os homens.

O pintor espanhol Francisco de Goya (1746-1828), pintor da corte de Bonaparte durante a ocupação francesa de Espanha de 1808 a 1813, teve pesadelos extremos, que pintava nas paredes da sua casa no início de 1820. As severas pinturas e gravuras político-satíricas de Goya revelavam a sua sensibilidade ao sofrimento humano.

A entusiasta da arte contemporânea, Irmã Wendy Beckett, expressa a esperança que ao pintar os seus pesadelos, Goya se libertasse do peso das suas dores.